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Breve introdução à história do Jogo do Pau da Ilha terceira

O Jogo do Pau é uma das mais notáveis formas de cultura popular que a Ilha Terceira possui, assumindo-se actualmente como uma forma de luta lúdica e desportiva. Em termos genéricos, caracteriza-se por ser uma forma de luta muito técnica em que a arma usada é um simples pau, normalmente liso e direito e da altura aproximada de um homem. O objectivo é atingir o ou os adversários e defender-se dos ataques por estes desferidos.

Crê-se que o Jogo do Pau surgiu na Ilha ao longo da colonização da mesma e evoluindo de uma forma muito peculiar a partir do jogo do pau praticado em Portugal continental e Brasil. Hoje em dia é praticado apenas o chamado jogo do pau da Ilha , dado que os outros dois tipos de combate, com o tempo, desapareceram.

Hoje em dia ainda se vê muitos homens do campo com os seus bordões, não sendo difícil perceber a importância que este utensílio de trabalho e de defesa teve ao longo dos séculos nesta Ilha. Este era uma preciosa ajuda na altura de afugentar algum cão, subir ou descer alguma parede, encaminhar vacas e touros entre muitas outras tarefas. Nenhum homem saia de casa sem levar o seu bordão, pois além de ser um utensílio de trabalho quando havia alguma rixa entre indivíduos, estes usavam o bordão para a resolver. Desta forma o bordão servia para a própia defesa pessoal da pessoa sendo por vezes utilizado também como arma para defender a Ilha, quando esta era atacada por piratas e corsários. Se não houvesse armas de fogo para todos, improvisava-se e eram usados bordões e outros utensílios para expulsar os atacantes, pois os residentes eram exímios no seu manejo. Contudo, a transmissao do Jogo do Pau até à actualidade não foi fácil, dado que este tipo de jogo esteve sempre envolto num certo secretismo, não só pelo facto de ter sido mais praticado pelo povo, os quais não tinham grandes conhecimentos de escrita, mas pelo facto de os Mestres ocultarem as suas técnicas, pois estes não queriam que outros praticantes conhecessem as suas técnicas, de modo a poder surpreender numa luta a sério. Deste modo era um Jogo praticado às escondidas, longe dos olhares de curiosos que pudessem descortinar as técnicas usadas. Assim este jogo foi transmitido de boca a boca, dado os poucos registos existentes.

Um grande contributo foi prestado por Paulo Melo que ao publicar em 1992 o livro “O Jogo do Pau na Ilha Terceira imortalizou diversas histórias que os mais “antigos” conheciam, sendo uma obra preciosa para conhecermos mais profundamente o Jogo do Pau na Ilha.

Aspectos técnicos

O Jogo do Pau praticado na Ilha Terceira e apesar da sua origem advir do Continente Português, diferencia-se deste pelo facto de ter evoluído de uma forma muito própia na Ilha.

Este caractteriza-se por ser um Jogo muito técnico e em que é dada também muita importância ao manuseamento do bordão, sem que isso seja sinónimo de perda de control ou atenção sobre o adversário. Os ataques são direccionados para o corpo do oponente exigindo-se dos praticantes uma grande mobilidade. Para que essa mobilidade seja efectiva, os passos de entrada e saida da área de alcance do bordão do adversário assumem capital importância, pois quem melhor conseguir encurtar a distância, melhores probabilidades terá de contra atacar com sucesso. Uma das particularidades deste jogo é conseguir-se entrar dentro da área do oponente e com o bordão bem seguro pelas duas mãos (Chamado jogo de duas pontas) desferir golpes que geralmente só os mais entendidos tem a capacidade de anular. Outra característica são as entradas e saidas com saltos em rotação, e com o bordão em rodopio, que geralmente dão ao combate uma amplitude muito maior. É um Jogo em que a versatilidade não é palavra vã dado que pode-se jogar empregando o bordão com apenas uma ou as duas mãos juntas, sendo este tipo de Jogo chamado de uma ponta, pois executa-se as técnicas pegando-se exactamente na ponta mais grossa do bordão, ou empregar o bordão com as duas mãos, chamado Jogo de duas pontas. Se o primeiro tipo de jogo nos dá alguma segurança dado que ao jogar existe uma distância grande entre o nosso adversário, no segundo a distância é curta, requerendo mais habilidade e perspicácia para manter-se um bom jogo. Outra característica própia do nosso jogo é a pega do bordão ser sempre feita na parte mais grossa, ao invés do jogo do Continente que gosta de fazer a pega na parte mais fina.

Em termos puramente exibicionais, o Jogo do Pau da Ilha Terceira resulta de forma espectacular e isso tem-se visto não só nas demonstrações efectuadas cá na Ilha, mas também no Continente.